May 19, 2016

#precisamosfalarsobreafau

Na semana passada vi uma movimentação das alunas e alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP São Paulo usando a hashtag #nãoénormal. Após a campanha da Coletiva ENEFAR (Coletiva da Executiva Nacional dos Estudantes de Farmácia) da UFPI Usando a hashtag “não é frescura” (#NAOEFRESCURA) que teve por objetivo mostrar que algumas situações psicológicas vivenciadas pelos estudantes não devem ser banalizadas, como o fato de um discente não conseguir fazer uma prova por causa de uma crise de ansiedade ou de pânico, as alunas e alunos da arquitetura e urbanismo se reconheceram e começaram a se articular.

Nos cartazes espelhados pela faculdade falavam sobre as angústias que sentem diariamente e que estão associadas ao curso, às relações com professores e colegas, ao tempo, ao dinheiro... Associada à hashtag #nãoénormal veio também #precisamosfalarsobreafau. E precisamos mesmo, especialmente porque esse ar de normalidade no abuso em sala de aula é depois carregado fora da academia, nas nossas contratações profissionais. Se não falarmos sobre isso dentro da escola, na vida profissional temos ainda menos espaço.


Mas afinal, qual é o conteúdo desses cartazes e dessa campanha?

São relatos sobre situações extremas que vivem ao longo do curso e que não deveriam ser tratadas como normal.  Na página que os alunos montaram no facebook estão reunidos até agora 114 relatos de alunos sobre situações de constrangimento, de violência psicológica, de privação que passam no período da faculdade. São frases como "Não ter vontade de ir para a faculdade não é normal", "Não ter tempo para projetos pessoais não é normal", "o professor te fazer chorar não é normal", "ter medo de se pronunciar em sala de aula não é normal", "ter crises de depressão por estar sobrecarregado não é normal", "sentir culpa por dormir mais do que 4 horas não é normal", "sentir culpa por estar usando o horário de almoço para almoçar não é normal"... e por aí vai. 

Não é difícil entender que não é normal mesmo, mas na faculdade de arquitetura tratamos como se fosse, e depois repetimos o mesmo comportamento na vida profissional, tratamos como brincadeira as frases "arquiteto não dorme" e "arquiteto não se aposenta, morre", mas elas são na verdade uma grande violência sobre todos nós.

Na USP, na UFJF, na UFBA e em tantas outras faculdades estudantes se organizaram e colocaram pra fora suas angústias nos cartazes pelos corredores. Neste terça feira os corredores da nossa faculdade foram cobertos com cartazes com a hashtag #nãoénormal. Desta vez não estou na posição dos estudantes, mas de professora, provavelmente alvo das críticas das alunas e alunos.
Não vimos nos corredores a articulação de estudantes para montar a campanha, mas vimos suas postagens no Facebook reconhecendo situações e sentimentos em comum, vimos em sala de aula seu choro e a ansiedade em semanas de entregas de projetos, vimos sua saúde afetada pela pressão, a preocupação quando seus filhos estão precisando de cuidados e eles tem que estar em sala. Não vimos sua articulação mas sabemos que eles se reconhecem na campanha.

Eu não vi os cartazes nas paredes, naquela noite eu não tinha aulas no mesmo prédio que eles. Só fui saber ontem o que tinham feito. Mais tarde fiquei sabendo que algum aluno achou que tinha dedo meu na história. Não tinha, mas fico feliz em ser reconhecida como uma possível articuladora de uma campanha como essas. Mas, se tivesse participado, teria feito mais barulho, teria sugerido uma convocação pública, um debate maior.

Apesar de os cartazes terem sido removidos, acho que surtiram algum efeito. O mais imediato foi trazer a discussão para a sala dos professores, foi nos fazer vestir a carapuça que nos servia. Ontem discutimos sobre essa normalidade das coisas que não são normais, comparamos nosso período como estudantes e os professores que somos hoje.
Será que conseguimos ser professoras e professores que despertam curiosidade nos alunos, que despertam desejo em conhecer mais, que despertam tesão pela arquitetura e pelo urbanismo, ou despertamos medo, angústia, desinteresse...

Tomamos um belo tapa na cara, moçada.

Espero que possamos continuar esse debate e mudar a cara do nosso curso, mas está também na mão de vocês. Mantenham-se organizados e vamos em frente, o colegiado de professores e a coordenação do curso estão abertos.




ps.: Fiquei feliz também em ver nossos alunos, há tanto tempo sem centro acadêmico, sem organização interna, interagindo com campanhas dos alunos de outras instituições.


Apr 11, 2016

alucinações do último ato

Completavam-se exatos 18 anos que havia comprado o terreninho no Morumbi, quando decidiu mudar-se pra lá definitivamente. Sua mãe e as irmãs já ocupavam os outros quartos. O pai estava em casa separada, mas pertinho dali.

Avisou ao irmão caçula no dia anterior. 
- Pra minha mãezinha já telegrafei, E já me cansei de tanto sofrer, Nesta madrugada estarei de partida, Pra terra querida que me viu nascer.
Pegou o trem no dia seguinte cantando com Judy Garland.




Acenando pela janelinha do trem conseguiu ver a confusão na estação que sua partida causava. Não que fosse novidade sua partida iminente, mas era difícil para os que estavam na plataforma vê-lo partir.

Escreveu seu último ato como escrevia suas peças e os mais recentes contos, com muito humor e aquela pitada de sarcasmo, humor negro e amarga honestidade (como disse um crítico sobre sua obra). 
Ria ao ver os amigos queridos e o irmão cuidando das burocracias da sua partida. 
Mas com que roupa ele vai? Essa mala é a que ele escolheria? Ele deixou alguma coisa preparada, disse como gostaria que acenássemos da estação? Alguma direção, coreografia? Como assim, ele era diretor e não deixou instruções para os atores da peça? 

O último ato, incluía gângsters em cena, a máfia das flores como era conhecida na cidade. Atiravam para todo lado, ameaçavam de sequestro. Horas de negociação até a liberação do mocinho na alfândega. Vocês querem vê-lo antes da partida? Ele vai cumprimentar a todos que forem se despedir? Temos maquiadores, iluminadores, figurinistas, cenógrafos, todos especializados... tem certeza que não vão querer?
sim, certeza, apenas um aceno de longe, sem janelinha. Como poderia ele em cena sem sua batuta.

Levou consigo lembranças de seus gatos, como um faraó egípcio. Tinha o pêlo dos bichanos nas vestes, uma pequena cerâmica costurada à lá Artur Bispo do Rosário em seu bolso. Não permitiram que levasse líquidos, sabe como é, se não deixam no avião também não deixam no trem. Os vasilhames hoje em dia são perigosos...
Quando chegou na estação para sua despedida viu os amigos carinhosamente preparando o cenário, as luzes, as flores. Tanto amor ali, tanto carinho e tanta saudade. Só foi embora porque estava certo do reencontro um dia.

Na estação, na despedida, muitos se amontoavam. Mas ele já estava dentro do vagão e não ia mais fazer uma aparição. Deve ter se divertido ouvindo às especulações do motivo de sua ausência na própria despedida. 
Ele estava lá, esteve com todos e provavelmente acumulava personagens para as próximas histórias. Talvez um romance? Se bem que um volume com vários contos estava pronto ali à sua volta.

O irmão mais velho em certo momento desabafou irritado "ele furou a fila!"
As vozes que cantavam Amazing Grace preenchiam a plataforma da estação e ovacionado, como devem ser os artistas, ele partiu para uma caminhada até a colina onde fica seu terreninho. 
Tem vista, árvores, e aos domingos tem um pancadão pra animar a tarde. No momento da despedida até rojões soltaram.

E agora ele mora na colina, e canta e ri, e nós ficamos aqui na saudade.







Nov 10, 2015

das dores

demorei a escrever... demorei porque ainda ruminava os fatos, mas demorei também porque falar dessa dor tiraria do topo da lista aquele momento de alegria intensa da semana passada.
Mas não falar será mais complicado do que me abrir novamente aqui.
(parênteses introdutório) Estava vendo agora um vídeo sobre feminicídio, violência contra a mulher e me incomodou na fala das pesquisadoras entrevistadas as sentenças em que elas se distanciam, ou se excluem daquela população de que falam. Não são "elas, as outras mulheres" que tem medo, somo nós, todas nós. (fecha parêntesis)
Na semana passada, ainda sob efeito da água gelada do Inhotim e do reencontro de antigas paixões, recebemos notícias terríveis.
Havia quase duas semanas que num dos campi em que leciono as paredes estavam cobertas com cartazes de "desaparecida" e a foto de uma menina de 21 anos. Larissa, aluna nossa da Biomedicina havia sido vista pela última vez estacionando o carro na rodoviária de Extrema a caminho da universidade.
Na última terça feira, quando saí para o intervalo, todos os cartazes haviam sido recolhidos, e ela encontrada. Na verdade seu corpo. Amarrado, torturado, desfigurado e decomposto.
Segundo os noticiários, ela havia descoberto que seu namorado tinha um caso com um homem, que era também empregador dos dois (dela e dele, modelos da confecção) e por isso sua morte foi encomendada pelo dois. Sim, encomendada!
Pagaram mil reais para que ela fosse morta e se desse um sumiço em seu corpo. Morta com requintes de crueldade, disse a legista, ao analisar o que restava de seu corpo em avançado estado de decomposição.
Que merda de mundo é esse em que um homem acha que ser um assassino é melhor que assumir seu romance com outro homem?
Em que curva desse raciocínio atrofiado eles acharam que tinham que matá-la. Porque eles acharam que tinham o direito sobre a vida dela? Que merda!
Como que a vida dessa menina vale mil reais dividido entre duas pessoas? ou melhor, quem deu preço à vida dela?
Imagino a negociação, a barganha... cobro dois. só pago mil. quinhentos na entrada, quinhentos depois que apresentar provas do serviço.
Desta vez o caçador não levou o coração do cervo. Largou o corpo da princesa no bosque, sem anões mineradores, príncipes... sem que ela própria tivesse chance de fugir
Descobri depois de um tempo lecionando, que não me importa se aquela aluna e aquele aluno faz parte da minha lista de chamada, do meu diário, se faz parte da comunidade acadêmica, a responsabilidade que sinto por sua formação é igual. É claro que o convívio semanal gera relações de afeto mais profundas, mas aluno de um é aluno de todos...
Digo isso porque a Larissa não era minha aluna, mas era aluna de meus colegas, que sentirão sua falta na sala de aula, era amiga de meus alunos, que dividiam com ela os assentos no ônibus.
Também não era minha aluna a Tayná, mas sua morte trágica na sexta feira deixará grandes cicatrizes. Tayná seria minha aluna no próximo ano, e pelo que ouvi, seria das boas. Não tive tempo de conhecê-la.
Ninguém teve tempo de impedir o que aconteceu.
Ela avisou a um amigo por uma mensagem de voz "tem um caminhão vindo em minha direção, vou jogar meu carro" e fez.
Que dor tão insuportável era essa que a única saída que ela viu era bater de frente com um caminhão?
Fiquei completamente sem chão, sem saber o que fazer...
Fui dar a notícia terrível da morte da colega aos meus alunos e não consegui, caí num choro de lágrimas gordas, completamente desmontada, como aquele brinquedo da vaquinha de elástico que você aperta o fundo e ela fica mole.
Foram duas alunas numa mesma semana. Foram duas tragédias e o chão sumiu completamente.
A morte delas despertou lembranças que estavam bem enterradinhas. Zumbis que voltaram para assombrar um pouco os dias...
Ouvi uma colega comentando o caso da Larissa: "com que tipo de gente essas meninas andam? elas não sabem distinguir os caras?"
Não, e não são elas que não sabem, NÓS não sabemos.
Se foi só depois dos 21 que percebi o tamanho dos abusos a que estava sujeita naquele namoro que começou na adolescência, imagino que ela não teve nem tempo de perceber, de testar, de crescer com seus enganos. Arrancaram dela a chance de errar e aprender. Mas em que mundo a culpa dessa atrocidade é dela? Não é! A culpa não é dela! Como pode? Ela foi enganada, sequestrada, morta, jogada do barranco no meio da mata e alguém vem dizer que foi culpa dela por não saber com que estava metida? Foi isso mesmo que eu ouvi? Merda!
A história da Tayná trouxe um fantasma que há muito não visitava, o do suicídio anunciado, como forma de controlar a relação. Naquela história de abusos que vivi, um dos jeitos que ele encontrou para que eu não partisse era a ameaça do suicídio. Todas as vezes que tomei fôlego e coragem para me libertar daquela situação, que não era de amor, era de posse (mas eu só descobri isso tempos depois) fui recebida com choro de crocodilo e a ameça "não posso viver sem você. Se você me deixar eu me mato". E lá ia eu, cheia de culpa, carregando a responsabilidade da vida de uma pessoa nas costas, com o rabo entre as pernas, de volta para o abuso. Sem perceber que quem morria aos poucos era eu.
Em nenhum cenário, se por acaso ele realmente tivesse a intenção de morte, aquilo seria minha responsabilidade. Nós não somos responsáveis pela felicidade do outro. Nós podemos fazer parte dela, mas ela não está em nossas mãos.
Mas no meu caso, aquela era uma ferramenta de controle. Ele sabia que eu não gostava nem de pensar em carregar uma culpa dessa e usava isso como grade daquela prisão.
O caso da Tayná não teve aviso prévio. Teve ação. E as vidas partidas que ficaram pra trás.
E o assento vazio na sala de aula, na mesa de jantar...


Nov 3, 2015

da relatividade do tempo

A relatividade de tempo e espaço nunca fizeram tanto sentido como nestes dez dias das últimas setenta e duas horas.
Teve o dia em que viajamos a madrugada toda, que deu às quatro horas de sono o mesmo poder restaurador de uma noite inteira. E nele roteirizamos nossas aventuras.
E aquele dia em que chegamos e andamos pela cidade, fazendo o reconhecimento da nossa nova casa, cheirando cada cantinho, sentido o sol por cada fresta. Sonhando com o carinho que as edificações no nosso caminho pediam tanto...
Teve também aquele dia em que passeamos pela lagoa reencontrando amigos de longa data, amigos que conhecemos tanto sem nunca termos nos visto antes. E todas as cores e todas as flores estavam lá pra nos receber, assanhadas. E nos encontramos do jeitinho que fantasiávamos. E trinta e oito corações batendo acelerados, ouvidos atentos, olhares curiosos e as pernas cansadas. Os dois quilômetros transformados em cinco e as curvas azuis com sabor de sorvete no final.
Mas o que coroou aquele dia foram as rodas das crianças dançando.
Também teve aquele dia em que à noite as pessoas andavam fantasiadas e o dj procurava motivos pra ir embora (mas essa parte eu já não vi, me contaram).
Num dos dias fomos guiados por um mundo de fantasia, de cores, formas, cheiros, ventos e sensações que ainda não conhecíamos. E o celacanto provocou maremotos nos olhos e corações. Aquele dia terminou no reflexo de Narciso nas bolas prateadas oferecidas por Yayoi e na expansão ao infinito dos quarenta horizontes. Mas foi o som dos vinte e nove infinitos que fizeram meu coração bater quentinho.
No outro dia nos perdemos nesse mundo da fantasia. Passamos por aquele mundo em que dia vira noite e noite vira dia, que aquilo que está ao sol é escuro e o subterrâneo é claro (Marco Polo deve ter relatado a Kublai Khan sua visita a este lugar).
Cosmococonautas descobrimos a gruta da oficina e nos perdemos numa deliciosa viagem para finalmente nos encontramos na água gelada de fazer gargalhadas do rio que passava debaixo da gruta. E no formigamento do corpo, a pulsação de todas as veias e artérias, e o batuque do coração no ouvido, a respiração quente, mais quente agora com o corpo gelado. E todos os problemas que desapareceram, congelados na água, ficaram sem importância.
E o barato da água ficou conosco pra sempre...
Refeitos e inteiros curtimos aquele dia em que a noite não tinha fim, a noite dupla. 
Aquela em que o alinhamento dos planetas provocou um encontro de almas como nunca antes visto. E andamos pela noite quente, donos da noite e das ruas. E cantamos com todo o ar de nossos pulmões, e dançamos até os sapatos aprenderem os passos e dançarem sozinhos. E cantamos mais, deixando em evidência o amor ao chocolate. E a voz acabou. E sem voz, voltamos pra casa, mesmo que a vontade fosse de que a noite não tivesse fim.
E no penúltimo dia, de coração partido, nos despedimos com calma da nossa casa, guardamos as lembranças na mala, o sabor doce.
No último dia, voltando pra casa o céu chorava de saudade, e despedimo-nos entre lágrimas, palmas e Manoel de Barros.




Tentei montar com aquele meu amigo que tem um olhar descomparado, uma Oficina de Desregular a Natureza. Mas faltou dinheiro na hora para a gente alugar um espaço. Ele propôs que montássemos por primeiro a Oficina em alguma gruta. Por toda parte existia gruta, ele disse. E por de logo achamos uma na beira da estrada. Ponho por caso que até foi sorte nossa. Pois que debaixo da gruta passava um rio. O que de melhor houvesse para uma Oficina de Desregular Natureza! Por de logo fizemos o primeiro trabalho. Era o Besouro de olhar ajoelhado. Botaríamos esse Besouro no canto mais nobre da gruta. Mas a gruta não tinha canto mais nobre. Logo apareceu um lírio pensativo de sol. De seguida o mesmo lírio pensativo de chão. Pensamos que sendo o lírio um bem da natureza prezado por Cristo resolvemos dar o nome ao trabalho de Lírio pensativo de Deus. Ficou sendo. Logo fizemos a Borboleta beata. E depois fizemos Uma idéia de roupa rasgada de bunda. E A fivela de prender silêncios. Depois elaboramos A canção para a lata defunta. E ainda a seguir: O parafuso de veludo, O prego que farfalha, O alicate cremoso. E por último aproveitamos para imitar Picasso com A moça com o olho no centro da testa. Picasso desregulava a natureza, tentamos imitá-lo. Modéstia à parte.
(Oficina. Memórias Inventadas, a segunda infância. Manoel de Barros)

Nov 26, 2011

das cotas nos projetos de arquitetura

Eu dificilmente leio o caderno de esportes da Folha. A não ser quando tem notícias de aberturas das Olimpíadas ou grandes construções de complexos desportivos.
Foi esse o caso hoje (25/11/2011).
A manchete “Cota para deficiente na Copa-2014 gera disputa” ganhou minha atenção e fui lá procurar saber o que isso significava.
Ao que tudo indica em nenhum dos estádios projetados para a Copa de 2014 a cota exigida pelo Decreto Federal 5.296 de 2004 para assentos reservados a pessoas com deficiência e dificuldade de locomoção foi atingida.
Grande chance a nossa de refazer os antigos estádios, modernizar, deixar mais confortável para o público e assim atrair mais gente para as partidas, mesmo após o final da Copa. Aumentar tudo, trocar a iluminação, refazer os banheiros, as lanchonetes, as coberturas. Que delícia de oportunidade tiveram os arquitetos que fizeram esses projetos.
Pena que eles seguiram a legislação errada.
Lei Federal 10.098 de 2000 e o Decreto Federal 5.296 de 2004, junto com a norma técnica NBR 9050/2004 da ABNT regem nossos espaços construídos, principalmente os de uso coletivo, no que diz respeito à equiparação de oportunidades para as pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. O texto da legislação brasileira é muito feliz ao incluir idosos e pessoas com dificuldade de movimentar-se, permanente ou temporariamente, como gestantes, pessoas acidentadas ou em tratamento de doenças graves. As cotas dos assentos são destinadas a todas elas. A elas e a seus acompanhantes, porque, convenhamos, ir ao cinema sozinho nem sempre é bom. Ir ao estádio torcer é muito mais gostoso em grupo. E as pessoas nem sempre tem autonomia para ficarem sozinhas.
A legislação está aí para garantir que TODOS os brasileiros tenham as mesmas oportunidades de cultura, educação, lazer... E as cotas se fazem necessárias neste momento.
Num mundo mais altruísta as cotas não seriam necessárias, o acesso seria universal, e desde o primeiro pensamento para um traço de projeto todas as pessoas com todas as habilidades seriam incluídas.
Mas nosso mundo ainda não é assim, e a maneira de garantir que todos possam assistir a um jogo de futebol num dos maiores eventos desportivos que nosso país já sediou, é exigir a aplicação das cotas nos projetos arquitetônicos.
Fico feliz em saber que a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República está atenta e cobrando para que sejam respeitadas as normas brasileiras sobre as internacionais.
Fico triste em ver que meus colegas arquitetos responsáveis por estes projetos não se preocuparam com esta parcela da população.
Tantas vezes nos comparamos aos países europeus, aos norte-americanos, dizendo que nossas leis não são suficientes, não nos protegem, não punem os culpados, e quando finalmente temos uma lei mais humana que as internacionais, que se preocupa mais com os direitos do cidadão, achamos que ela não precisa ser cumprida em sua totalidade.
No caso dos estádios, o exemplo usado na reportagem da Folha foi o novo estádio do Corinthians, em Itaquera, São Paulo. O estádio deve abrigar a abertura da Copa, ou seja, um estádio para 70mil pessoas. Segundo a norma brasileira deveriam ter sido previstos 2.800 assentos para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, sendo 1.400 para usuários de cadeiras de rodas e outros 1.400 para pessoas com mobilidade reduzida, incluídos neste grupo deficientes visuais, idosos, gestantes, obesos, pessoas com dificuldades temporárias de se movimentar. 
Foram previstos 300 lugares.
Convenhamos, em 70mil pessoas, só 300 se encaixam na descrição acima? Acho difícil de acreditar.
Quando um arquiteto é contratado para um projeto ele deve recolher uma Assinatura de Responsabilidade Técnica, que é um documento oficial no qual estão os principais dados sobre o projeto, a metragem projetada, o tipo de edificação, o tipo de contratação, quanto ele recebeu pelo projeto. Ao final deste documento, logo acima da assinatura do profissional está escrito: “Declaro ser de minha responsabilidade técnica, dentro das atividades assumidas nesta ART e nos termos aqui anotados, o atendimento às regras de acessibilidade previstas nas Normas Técnicas de Acessibilidade da ABNT e na legislação específica, em especial o Decreto nº 5.296/2004, para os projetos de construção, reforma ou ampliação de edificações de uso público ou coletivo, nos espaços urbanos ou em mudança de destinação (usos) para estes fins”.
Ou seja, não importa que o contratante do projeto seja a FIFA, um organismo internacional, e que os manuais da FIFA exijam apenas os 300 lugares reservados a pessoas com deficiência, se o projeto está sendo realizado no Brasil, a lei brasileira é soberana e deve ser respeitada.
Espero que meus colegas tenham bastante criatividade para resolver essa situação dos projetos dos estádios. E que a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República tenha o pulso firme para exigir uma solução adequada.
Espero que no futuro, nos próximos projetos que realizarem, tenham em mente os princípios do Desenho Universal (utilização equiparável, flexível, simples, tolerante ao erro, que informe de maneira eficaz suas formas de uso, que possuam tamanhos e espaços que viabilizem o uso e exijam pouco esforço físico) desde o princípio, e não apenas como checklist de elementos ao final do projeto.
Acessibilidade não é só colocar rampa, elevador, corrimão, piso podotátil e um banheiro grande num equipamento de uso coletivo, é permitir que todas as pessoas, independente de suas habilidades, possam, com conforto e dignidade, participar das atividades realizadas naquele espaço.

Jul 7, 2011

New Haven Casual

tava pensando...
Tenho um montão de coisas pra fazer e uma preguiça danada... então resolvi escrever no blog.
Pra quê escrever o artigo pra mandar pro congresso se eu posso escrever no blog sem ter que conferir citação nenhuma?
Mas tava pensando sobre nossa viagem, que já está quase chegando no fim.
Já estamos empacotando coisas, combinando desligamento da internet e da TV antes que chegue a próxima conta, fazendo as comprinhas da família, as lembrancinhas dos amigos.
Estamos nos preparando pra uma semaninha de férias também. bom, eu tenho férias, o marido acabou de arrumar mais uns lugares pra fazer as últimas pesquisinhas... mas...
Com o verão à toda, o sol indo embora só depois das 8, a agente tem conseguido passear pela cidade no final da tarde. Antes de ficar escuro e esquisito.
Confesso que esses passeios tem um gostinho especial.
A luz está linda no final da tarde, as construções todas de pedras refletem o sol diferente da tinta e da cerâmica que estamos acostumados. O verde psicodélico das árvores é realçado pelos raios de sol quase horizontais.
Mas de longe o que eu mais gosto são os sinos.
De hora em hora podemos ouvir os sinos da universidade ecoando pela cidade.
É diferente do sino da igreja que avisa a hora de nos deitarmos todo dia no Brasil.
Não são os badalos que marcam as horas das missas, eles marcam as horas das aulas, do final do dia acadêmico.
Tem um som suave que diz "podem descansar e pensar sobre o dia de hoje"