Apr 23, 2020

Algum dia da pandemia. Ou o pior roteiro de filme da sessão da tarde de todos os tempos

Parece que eu só volto por aqui em momento de crise. Quando criei o blog não era assim, mas acho que agora é isso mesmo... 

Estamos aqui em abril de 2020, isolados em casa, em meio à pandemia de Covid-19. 
Na presidência do Brasil está o tal capitão contra o qual marchamos em 2018 (última vez que escrevi no blog). A situação é muito triste.
Às vezes oscilo entre tristeza e raiva, um pouco de melancolia e depois fico esperançosa, aliviada em alguns momentos. Mas a situação está difícil.

Na TV, entre os absurdos que são noticiados todos os dias, acho muito difícil entender que algo carinhosamente apelidado de Gabinete do Ódio ainda não tenha sido desintegrado.
Um grupo com poder de decisão sobre a vida e a morte (ou sobre matérias legislativas que podem auxiliar ou dificultar a vida da população) não pode ser chamado (com razão) de Gabinete do Ódio e continuar existindo.
Meu problema não é com o apelido dado, entendam, é com o fato de que o apelido cabe, o apelido foi assumido por eles, eles se reconhecem nele.
Não pode! Não é aceitável!

Ah, mas vai dizer que você não sente um odiozinho de vez em quando?
Claro que sinto, especialmente quando vejo umas coisas dessas, mas é inadmissível que o ódio ao outro seja institucionalizado, reconhecido e aceito. Que tenha um gabinete e que alguém te aponte o caminho.
É de cair o cu da bunda!
Ah, e claro, Gabinete do Ódio é o gabinete do filho do presidente.

Por sinal, acho surreal essa história de filho do presidente... sabe tipo monarquia, família real de filme B, que prepara os herdeiros, que eles tem que acompanhar algumas reuniões para depois assumir o cargo? Mas não estamos numa monarquia, e se estivéssemos, essa não seria a "família real"... é golpe ditatorial mesmo... o filho do chefe cuida das contas das mídias sociais. Não é uma assessoria de imprensa, é o zero qualquer coisa. S-U-R-R-E-A-L!

Neste exato momento estamos aqui vendo o mundo todo lutando pela vida da população, correndo com medidas econômicas de auxílio aos mais vulneráveis. Cidades, estados, países fechados há meses. Centenas de milhares de mortos no mundo todo. E na maioria dos lugares a epidemia está ascendente, está crescendo, inclusive por aqui.
O Brasil vai na contramão das medidas sanitárias. 
O presidente briga com os governadores, discorda do ministro da saúde (a quem ele demite no meio do furacão), discorda da OMS, dos médicos e pesquisadores da área de saúde.
Uma meia dúzia de semi-endinheirados sai às ruas com seus carros tamanho GG pedindo a abertura do comércio além dos serviços essenciais. Gritam que as pessoas pobres morrerão de fome.
Mas não gritam com a mesma força para pedir que as medidas de auxílio econômico aos mais vulneráveis sejam maiores e a distribuição mais eficiente.
Querem que as pessoas voltem ao trabalho, porque sem a autorização dos estados e municípios não podem chamar seus empregados domésticos de volta, não podem voltar ao seu consumo diário de itens supérfluos. 
Não existe preocupação com a economia. Existe é preocupação com a manutenção do próprio privilégio, mas não vamos admitir isso nunca, porque é feio. Então diremos que é para a economia não entrar em colapso.

Ô anjos, não tem mais jeito, a economia mundial entrará em colapso, não é mais possível reverter. O que dá pra diminuir um pouco é o número de mortes.

Acho ruim falar número de mortos, é muito impessoal. Parece que quem morreu não era gente, não era da família de alguém, não era mãe, pai, vô, vó, tio, tia, filho, filha, BFF, ou o grande amor da vida. 
É bem mais triste pensar assim, mas é mais real.
Escrevo agora com aquele nó na garganta que a gente sente ao segurar o choro.
Números não impressionam. Gráficos não causam dor se não se souber lê-los.
E hoje a notícia é de que além do sistema de saúde chegar no seu limite, da falta de equipamentos de proteção para os profissionais da saúde, também os serviços funerários chegaram ao limite. Não dá mais para abrir valas individualmente e os enterros serão coletivos. Tem fila nos cemitérios, mas não tem velório.
Em Manaus o número de mortos em um dia é 3 vezes maior do que se morria normalmente. Na conta do jornalista, se o número de mortes no trânsito e os assassinatos diminuíram com o isolamento social, então, o número de mortos infectados pelo vírus é mais do que 2 vezes o número médio diário de mortos na cidade. Mas não temos testes suficientes para comprovar esse volume. A subnotificação é enorme.
Não temos informação, só podemos ler os dados e desconfiar um pouco.

Aí, como se não bastasse a loucura geral em que nos encontramos, o presidente comprou briga também com o ministro da justiça, aquele marreco golpista que era juiz e virou "superministro". O noticiário do meio da tarde parece noticiário dos alunos da 2ª série na cobertura do cabo de guerra da hora do recreio.
Não creio!

Em tempo, só pra deixar registrado, não há da minha parte apoio a nenhum ministro deste governo. Nenhum, em momento algum. Mas, contudo, todavia, entretanto,  é bem imprudente demitir um ministro de saúde que minimamente sabia o que estava fazendo, pra colocar outro no lugar no meio de uma crise sanitária de níveis apocalípticos. 

Fico imaginando o presidente felizão da vida pensando como a pandemia veio a calhar em sua necropolítica. Tudo em seu governo apontava para a destruição do estado de bem estar social, dos sistemas públicos de saúde, educação, previdência, distribuição de renda... Aí vem um vírus com a capacidade de eliminar 10% da população. Não pode barrar o vírus. Ele faz parte da solução desse governo: deixar morrer os mais vulneráveis.
Mas... isso é muito cruel! Como você pode pensar isso?
Porque antes era cruel também, mas era mais lento e a gente conseguia fazer de conta que não viu...

Sep 17, 2018

dos acontecimentos políticos nas eleições presidenciais de 2018


As amigas certamente sabem, os amigos devem ter visto por aí, mas no sábado à tarde (15/09) o grupo no Facebook Mulheres Unidas Contra Bolsonaro (MUCB) foi hackeado, invadido e teve o nome alterado para demonstrar apoio ao crápula.

Se você não entendeu bem o que isso significa e está achando que é só brincadeira de internet, vou tentar ilustrar aqui: foi como se alguém tivesse invadido a minha casa e colocado bandeiras de apoio ao coisa-ruim nas minhas janelas.

Alguém (um homem apoiador do coisa-ruim) entrou no grupo, no qual 2.400.000 mulheres estavam reunidas e se mobilizando contra a candidatura de alguém que nos oferece perigo, mudou o nome do grupo e saiu por aí dizendo que o grupo era de apoio e que era mentira nossa reunião. Usaram nossa imagem, nossos perfis, postaram por aí dizendo que na verdade era uma organização de apoio.

Deu pra entender o tamanho da violência que sofremos neste final de semana?

Saí de casa no sábado à tarde dentro de um grupo contra a peste e voltei pra casa com notificações de um grupo a favor.

Foi uma violação gigantesca, foi uma tentativa torpe de nos calar e doeu profundamente.

(mas não nos calamos, não nos calaremos e estamos mais articuladas ainda)

Eu estava no grupo desde que ele tinha 500.000 integrantes, quando fui convidada por uma amiga, e o vi crescer até os 2.400.000 antes do sequestro.

Ontem eu não conseguia fazer outra coisa que não fosse acompanhar a atualização dos acontecimentos, a recuperada do nosso grupo, a nova invasão de perfis de reais ou não tentando tumultuar e invalidar nossa articulação. E a energia mental foi sendo minada.

Vou explicar uma regrinha de etiqueta: se você é convidado a participar de um grupo para o qual você não concorda com o posicionamento, você educadamente declina o convite. Por exemplo, se você é apoiadora do coisa-ruim, e é convidada por uma amiga a entrar no grupo CONTRA o coisa-ruim, você avisa a amiga "olha, fulana, agradeço por ter lembrado de mim, mas na verdade, discordo do teu posicionamento e prefiro não entrar no grupo", aí você vai na configuração e clica em "sair do grupo". Melhor do que entrar e tentar atrapalhar a conversa que tua amiga tá tendo com outras pessoas que pensam como ela. E você, pra não se sentir sozinha, se associa aos teu. Olha que fácil.

Outro exemplo: você é homem, se reconhece como homem, se apresenta como homem e as pessoas de reconhecem como homem, e você sem querer recebe um convite de uma amiga para integrar um grupo "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro". Pô, que legal, as mulheres estão se reunindo contra o coisa-ruim, quero ver isso de perto. Veja de perto, mas de fora, apoie o movimento, organize-se com outros homens, mas decline o convite para esse grupo, este é para MULHERES, todas elas, contanto que sejam MULHERES.

E claro, se você for homem e não estiver de acordo com a temática do grupo, simplesmente saia. Teu lugar não é aqui. É feio, muito feio o que aconteceu.

Não, não é brincadeira de criança. É violência, violação do nosso direito de associação. É grave. É censura. É crime.

Aí ontem à noite, pra tentar relaxar, mudar de assunto e me preparar para a semana, aproveitei o sinal aberto da Paramount na operadora de TV à cabo e assisti aos três primeiros episódios de "The Handmaid's Tale - O Conto da Aia".

Talvez não tenha sido a ideia mais brilhante que tive nos últimos tempos...

Se você ainda não assistiu ao seriado, ou leu o romance de 1985 da Margaret Atwood, sugiro que pare tudo e faça agora.

A resenha do livro de Atwood, infelizmente, se parece demais com a realidade, ou com o medo que sinto neste momento.

"O romance distópico O conto da aia, de Margaret Atwood, se passa num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no Muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Para merecer esse destino, não é preciso fazer muita coisa – basta, por exemplo, cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes."

Depois disso precisei entrar um pouquinho no Instagram, na aba de fotos de filhotes de cachorros para conseguir pegar no sono.

Jul 26, 2017

dos seriados de TV


Às vezes a gente assiste alguma coisa na TV que nos toca profundamente, e não estávamos preparados pra isso. (spoiler alert)

Começamos a assitir ao seriado da Netflix "Friends From College". A sinopse mínima falava pouco do clima do seriado: Um grupo de amigos que se conheceram na faculdade, em Harvard, compartilha os sucessos – e fracassos – da vida aos 40 e poucos anos.

Bom, o seriado fala mais dos fracassos, em todos os sentidos, do que dos sucessos. Ele tenta ser bem humorado, mas o tom cômico às vezes incomoda um pouco, ainda mais quando rola aquela identificação...

E claro que foi isso que aconteceu...

Assistir aos epoisódios 4 e 5 foi particularmente difícil.

Acompanhar a Lisa (Cobie Smulders) e o Ethan (Keegan-Michael Key) passando pelo processo da FIV foi relembrar cada uma das cerca de 90 injeções de hormônios que tomei ao longo das 3 tentativas que fizemos. Foi também refazer o cálculo do rombo financeiro que essas tentativas trouxeram consigo.

Me reconheci nas mudanças de humor da personagem ao longo do ciclo antes da punção ovariana, nos ematomas doloridos na barriga e na incapacidade de encontrar um lugar novo sem furos para injeções finais. 

No meu caso achei mais fácil eu mesma aplicar, muita confusão duas pessoas pra uma injeçãozinha tão pequena. E depois da dica da enfermeira sobre colocar o ar na ampola antes de colocar o liquido para dissolver o remédio, tudo ficou mais fácil. Mas assitindo ao episódio, fiquei muito irritada com aquele marido fazendo o maior teatro pra aplicar uma subcutânea...

Achei até tranquilo que tivessem que aplicar a última injeção, aquela com hora marcada, no banheiro da casa no meio da festa.  Nas nossa três tentativas tive que usar o banheiro da universidade no intervalo da aula. Numa das vezes estava aplicando prova no dia.

Mas certamente o mais difícil foi acompanhar o sofrimento dela com a perda do bebê. Que é uma coisa muito estranha na FIV, porque não é um bebê, é ainda um amontoado de células, mas a gente viu no ultrassom o médico colocar esse amontoado de células lá dentro do útero. Ele colocou bem aconchegado naquele endométrio grosso, acolchoado de sangue quentinho, preparado por dias só pra receber esse amontoado de células...

E o amontoado de células tinha uma lista de nomes esperando por ele ou por ela.

E a medicação fez a mama crescer, ficar dolorida, o corpo reter mais líquido... todos os sinais da gravidez estavam lá, menos ela.

A ficava pensando em quantas vezes os amontoados de célula simplesmente não se prenderam ao endométrio, e a menstruação desceu na data prevista, e ninguém nem percebeu que ele tinha passado por lá. Mas na fertilização in-vitro você sabe que ele estava lá, e fica se perguntando porque ele não gostou do quarto que você preparou com tanto carinho. Existe mesmo uma dor muito grande da perda de um bebê, não é a mesma coisa que o resultado do teste de farmácia.

Era o filho que você não teve a chance de ver crescer, e é bem complicado de lidar... 
Mas voltando ao seriado, a Cobie Smulders consegue trazer todas essas contradições na Lisa, como ela trouxe também na Robin Scherbatsky, quando a personagem descobre que não poderá gerar filhos.


May 19, 2016

#precisamosfalarsobreafau

Na semana passada vi uma movimentação das alunas e alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP São Paulo usando a hashtag #nãoénormal. Após a campanha da Coletiva ENEFAR (Coletiva da Executiva Nacional dos Estudantes de Farmácia) da UFPI Usando a hashtag “não é frescura” (#NAOEFRESCURA) que teve por objetivo mostrar que algumas situações psicológicas vivenciadas pelos estudantes não devem ser banalizadas, como o fato de um discente não conseguir fazer uma prova por causa de uma crise de ansiedade ou de pânico, as alunas e alunos da arquitetura e urbanismo se reconheceram e começaram a se articular.

Nos cartazes espelhados pela faculdade falavam sobre as angústias que sentem diariamente e que estão associadas ao curso, às relações com professores e colegas, ao tempo, ao dinheiro... Associada à hashtag #nãoénormal veio também #precisamosfalarsobreafau. E precisamos mesmo, especialmente porque esse ar de normalidade no abuso em sala de aula é depois carregado fora da academia, nas nossas contratações profissionais. Se não falarmos sobre isso dentro da escola, na vida profissional temos ainda menos espaço.


Mas afinal, qual é o conteúdo desses cartazes e dessa campanha?

São relatos sobre situações extremas que vivem ao longo do curso e que não deveriam ser tratadas como normal.  Na página que os alunos montaram no facebook estão reunidos até agora 114 relatos de alunos sobre situações de constrangimento, de violência psicológica, de privação que passam no período da faculdade. São frases como "Não ter vontade de ir para a faculdade não é normal", "Não ter tempo para projetos pessoais não é normal", "o professor te fazer chorar não é normal", "ter medo de se pronunciar em sala de aula não é normal", "ter crises de depressão por estar sobrecarregado não é normal", "sentir culpa por dormir mais do que 4 horas não é normal", "sentir culpa por estar usando o horário de almoço para almoçar não é normal"... e por aí vai. 

Não é difícil entender que não é normal mesmo, mas na faculdade de arquitetura tratamos como se fosse, e depois repetimos o mesmo comportamento na vida profissional, tratamos como brincadeira as frases "arquiteto não dorme" e "arquiteto não se aposenta, morre", mas elas são na verdade uma grande violência sobre todos nós.

Na USP, na UFJF, na UFBA e em tantas outras faculdades estudantes se organizaram e colocaram pra fora suas angústias nos cartazes pelos corredores. Neste terça feira os corredores da nossa faculdade foram cobertos com cartazes com a hashtag #nãoénormal. Desta vez não estou na posição dos estudantes, mas de professora, provavelmente alvo das críticas das alunas e alunos.
Não vimos nos corredores a articulação de estudantes para montar a campanha, mas vimos suas postagens no Facebook reconhecendo situações e sentimentos em comum, vimos em sala de aula seu choro e a ansiedade em semanas de entregas de projetos, vimos sua saúde afetada pela pressão, a preocupação quando seus filhos estão precisando de cuidados e eles tem que estar em sala. Não vimos sua articulação mas sabemos que eles se reconhecem na campanha.

Eu não vi os cartazes nas paredes, naquela noite eu não tinha aulas no mesmo prédio que eles. Só fui saber ontem o que tinham feito. Mais tarde fiquei sabendo que algum aluno achou que tinha dedo meu na história. Não tinha, mas fico feliz em ser reconhecida como uma possível articuladora de uma campanha como essas. Mas, se tivesse participado, teria feito mais barulho, teria sugerido uma convocação pública, um debate maior.

Apesar de os cartazes terem sido removidos, acho que surtiram algum efeito. O mais imediato foi trazer a discussão para a sala dos professores, foi nos fazer vestir a carapuça que nos servia. Ontem discutimos sobre essa normalidade das coisas que não são normais, comparamos nosso período como estudantes e os professores que somos hoje.
Será que conseguimos ser professoras e professores que despertam curiosidade nos alunos, que despertam desejo em conhecer mais, que despertam tesão pela arquitetura e pelo urbanismo, ou despertamos medo, angústia, desinteresse...

Tomamos um belo tapa na cara, moçada.

Espero que possamos continuar esse debate e mudar a cara do nosso curso, mas está também na mão de vocês. Mantenham-se organizados e vamos em frente, o colegiado de professores e a coordenação do curso estão abertos.




ps.: Fiquei feliz também em ver nossos alunos, há tanto tempo sem centro acadêmico, sem organização interna, interagindo com campanhas dos alunos de outras instituições.


Apr 11, 2016

alucinações do último ato

Completavam-se exatos 18 anos que havia comprado o terreninho no Morumbi, quando decidiu mudar-se pra lá definitivamente. Sua mãe e as irmãs já ocupavam os outros quartos. O pai estava em casa separada, mas pertinho dali.

Avisou ao irmão caçula no dia anterior. 
- Pra minha mãezinha já telegrafei, E já me cansei de tanto sofrer, Nesta madrugada estarei de partida, Pra terra querida que me viu nascer.
Pegou o trem no dia seguinte cantando com Judy Garland.




Acenando pela janelinha do trem conseguiu ver a confusão na estação que sua partida causava. Não que fosse novidade sua partida iminente, mas era difícil para os que estavam na plataforma vê-lo partir.

Escreveu seu último ato como escrevia suas peças e os mais recentes contos, com muito humor e aquela pitada de sarcasmo, humor negro e amarga honestidade (como disse um crítico sobre sua obra). 
Ria ao ver os amigos queridos e o irmão cuidando das burocracias da sua partida. 
Mas com que roupa ele vai? Essa mala é a que ele escolheria? Ele deixou alguma coisa preparada, disse como gostaria que acenássemos da estação? Alguma direção, coreografia? Como assim, ele era diretor e não deixou instruções para os atores da peça? 

O último ato, incluía gângsters em cena, a máfia das flores como era conhecida na cidade. Atiravam para todo lado, ameaçavam de sequestro. Horas de negociação até a liberação do mocinho na alfândega. Vocês querem vê-lo antes da partida? Ele vai cumprimentar a todos que forem se despedir? Temos maquiadores, iluminadores, figurinistas, cenógrafos, todos especializados... tem certeza que não vão querer?
sim, certeza, apenas um aceno de longe, sem janelinha. Como poderia ele em cena sem sua batuta.

Levou consigo lembranças de seus gatos, como um faraó egípcio. Tinha o pêlo dos bichanos nas vestes, uma pequena cerâmica costurada à lá Artur Bispo do Rosário em seu bolso. Não permitiram que levasse líquidos, sabe como é, se não deixam no avião também não deixam no trem. Os vasilhames hoje em dia são perigosos...
Quando chegou na estação para sua despedida viu os amigos carinhosamente preparando o cenário, as luzes, as flores. Tanto amor ali, tanto carinho e tanta saudade. Só foi embora porque estava certo do reencontro um dia.

Na estação, na despedida, muitos se amontoavam. Mas ele já estava dentro do vagão e não ia mais fazer uma aparição. Deve ter se divertido ouvindo às especulações do motivo de sua ausência na própria despedida. 
Ele estava lá, esteve com todos e provavelmente acumulava personagens para as próximas histórias. Talvez um romance? Se bem que um volume com vários contos estava pronto ali à sua volta.

O irmão mais velho em certo momento desabafou irritado "ele furou a fila!"
As vozes que cantavam Amazing Grace preenchiam a plataforma da estação e ovacionado, como devem ser os artistas, ele partiu para uma caminhada até a colina onde fica seu terreninho. 
Tem vista, árvores, e aos domingos tem um pancadão pra animar a tarde. No momento da despedida até rojões soltaram.

E agora ele mora na colina, e canta e ri, e nós ficamos aqui na saudade.







Nov 10, 2015

das dores

demorei a escrever... demorei porque ainda ruminava os fatos, mas demorei também porque falar dessa dor tiraria do topo da lista aquele momento de alegria intensa da semana passada.
Mas não falar será mais complicado do que me abrir novamente aqui.
(parênteses introdutório) Estava vendo agora um vídeo sobre feminicídio, violência contra a mulher e me incomodou na fala das pesquisadoras entrevistadas as sentenças em que elas se distanciam, ou se excluem daquela população de que falam. Não são "elas, as outras mulheres" que tem medo, somo nós, todas nós. (fecha parêntesis)
Na semana passada, ainda sob efeito da água gelada do Inhotim e do reencontro de antigas paixões, recebemos notícias terríveis.
Havia quase duas semanas que num dos campi em que leciono as paredes estavam cobertas com cartazes de "desaparecida" e a foto de uma menina de 21 anos. Larissa, aluna nossa da Biomedicina havia sido vista pela última vez estacionando o carro na rodoviária de Extrema a caminho da universidade.
Na última terça feira, quando saí para o intervalo, todos os cartazes haviam sido recolhidos, e ela encontrada. Na verdade seu corpo. Amarrado, torturado, desfigurado e decomposto.
Segundo os noticiários, ela havia descoberto que seu namorado tinha um caso com um homem, que era também empregador dos dois (dela e dele, modelos da confecção) e por isso sua morte foi encomendada pelo dois. Sim, encomendada!
Pagaram mil reais para que ela fosse morta e se desse um sumiço em seu corpo. Morta com requintes de crueldade, disse a legista, ao analisar o que restava de seu corpo em avançado estado de decomposição.
Que merda de mundo é esse em que um homem acha que ser um assassino é melhor que assumir seu romance com outro homem?
Em que curva desse raciocínio atrofiado eles acharam que tinham que matá-la. Porque eles acharam que tinham o direito sobre a vida dela? Que merda!
Como que a vida dessa menina vale mil reais dividido entre duas pessoas? ou melhor, quem deu preço à vida dela?
Imagino a negociação, a barganha... cobro dois. só pago mil. quinhentos na entrada, quinhentos depois que apresentar provas do serviço.
Desta vez o caçador não levou o coração do cervo. Largou o corpo da princesa no bosque, sem anões mineradores, príncipes... sem que ela própria tivesse chance de fugir
Descobri depois de um tempo lecionando, que não me importa se aquela aluna e aquele aluno faz parte da minha lista de chamada, do meu diário, se faz parte da comunidade acadêmica, a responsabilidade que sinto por sua formação é igual. É claro que o convívio semanal gera relações de afeto mais profundas, mas aluno de um é aluno de todos...
Digo isso porque a Larissa não era minha aluna, mas era aluna de meus colegas, que sentirão sua falta na sala de aula, era amiga de meus alunos, que dividiam com ela os assentos no ônibus.
Também não era minha aluna a Tayná, mas sua morte trágica na sexta feira deixará grandes cicatrizes. Tayná seria minha aluna no próximo ano, e pelo que ouvi, seria das boas. Não tive tempo de conhecê-la.
Ninguém teve tempo de impedir o que aconteceu.
Ela avisou a um amigo por uma mensagem de voz "tem um caminhão vindo em minha direção, vou jogar meu carro" e fez.
Que dor tão insuportável era essa que a única saída que ela viu era bater de frente com um caminhão?
Fiquei completamente sem chão, sem saber o que fazer...
Fui dar a notícia terrível da morte da colega aos meus alunos e não consegui, caí num choro de lágrimas gordas, completamente desmontada, como aquele brinquedo da vaquinha de elástico que você aperta o fundo e ela fica mole.
Foram duas alunas numa mesma semana. Foram duas tragédias e o chão sumiu completamente.
A morte delas despertou lembranças que estavam bem enterradinhas. Zumbis que voltaram para assombrar um pouco os dias...
Ouvi uma colega comentando o caso da Larissa: "com que tipo de gente essas meninas andam? elas não sabem distinguir os caras?"
Não, e não são elas que não sabem, NÓS não sabemos.
Se foi só depois dos 21 que percebi o tamanho dos abusos a que estava sujeita naquele namoro que começou na adolescência, imagino que ela não teve nem tempo de perceber, de testar, de crescer com seus enganos. Arrancaram dela a chance de errar e aprender. Mas em que mundo a culpa dessa atrocidade é dela? Não é! A culpa não é dela! Como pode? Ela foi enganada, sequestrada, morta, jogada do barranco no meio da mata e alguém vem dizer que foi culpa dela por não saber com que estava metida? Foi isso mesmo que eu ouvi? Merda!
A história da Tayná trouxe um fantasma que há muito não visitava, o do suicídio anunciado, como forma de controlar a relação. Naquela história de abusos que vivi, um dos jeitos que ele encontrou para que eu não partisse era a ameaça do suicídio. Todas as vezes que tomei fôlego e coragem para me libertar daquela situação, que não era de amor, era de posse (mas eu só descobri isso tempos depois) fui recebida com choro de crocodilo e a ameça "não posso viver sem você. Se você me deixar eu me mato". E lá ia eu, cheia de culpa, carregando a responsabilidade da vida de uma pessoa nas costas, com o rabo entre as pernas, de volta para o abuso. Sem perceber que quem morria aos poucos era eu.
Em nenhum cenário, se por acaso ele realmente tivesse a intenção de morte, aquilo seria minha responsabilidade. Nós não somos responsáveis pela felicidade do outro. Nós podemos fazer parte dela, mas ela não está em nossas mãos.
Mas no meu caso, aquela era uma ferramenta de controle. Ele sabia que eu não gostava nem de pensar em carregar uma culpa dessa e usava isso como grade daquela prisão.
O caso da Tayná não teve aviso prévio. Teve ação. E as vidas partidas que ficaram pra trás.
E o assento vazio na sala de aula, na mesa de jantar...


Nov 3, 2015

da relatividade do tempo

A relatividade de tempo e espaço nunca fizeram tanto sentido como nestes dez dias das últimas setenta e duas horas.
Teve o dia em que viajamos a madrugada toda, que deu às quatro horas de sono o mesmo poder restaurador de uma noite inteira. E nele roteirizamos nossas aventuras.
E aquele dia em que chegamos e andamos pela cidade, fazendo o reconhecimento da nossa nova casa, cheirando cada cantinho, sentido o sol por cada fresta. Sonhando com o carinho que as edificações no nosso caminho pediam tanto...
Teve também aquele dia em que passeamos pela lagoa reencontrando amigos de longa data, amigos que conhecemos tanto sem nunca termos nos visto antes. E todas as cores e todas as flores estavam lá pra nos receber, assanhadas. E nos encontramos do jeitinho que fantasiávamos. E trinta e oito corações batendo acelerados, ouvidos atentos, olhares curiosos e as pernas cansadas. Os dois quilômetros transformados em cinco e as curvas azuis com sabor de sorvete no final.
Mas o que coroou aquele dia foram as rodas das crianças dançando.
Também teve aquele dia em que à noite as pessoas andavam fantasiadas e o dj procurava motivos pra ir embora (mas essa parte eu já não vi, me contaram).
Num dos dias fomos guiados por um mundo de fantasia, de cores, formas, cheiros, ventos e sensações que ainda não conhecíamos. E o celacanto provocou maremotos nos olhos e corações. Aquele dia terminou no reflexo de Narciso nas bolas prateadas oferecidas por Yayoi e na expansão ao infinito dos quarenta horizontes. Mas foi o som dos vinte e nove infinitos que fizeram meu coração bater quentinho.
No outro dia nos perdemos nesse mundo da fantasia. Passamos por aquele mundo em que dia vira noite e noite vira dia, que aquilo que está ao sol é escuro e o subterrâneo é claro (Marco Polo deve ter relatado a Kublai Khan sua visita a este lugar).
Cosmococonautas descobrimos a gruta da oficina e nos perdemos numa deliciosa viagem para finalmente nos encontramos na água gelada de fazer gargalhadas do rio que passava debaixo da gruta. E no formigamento do corpo, a pulsação de todas as veias e artérias, e o batuque do coração no ouvido, a respiração quente, mais quente agora com o corpo gelado. E todos os problemas que desapareceram, congelados na água, ficaram sem importância.
E o barato da água ficou conosco pra sempre...
Refeitos e inteiros curtimos aquele dia em que a noite não tinha fim, a noite dupla. 
Aquela em que o alinhamento dos planetas provocou um encontro de almas como nunca antes visto. E andamos pela noite quente, donos da noite e das ruas. E cantamos com todo o ar de nossos pulmões, e dançamos até os sapatos aprenderem os passos e dançarem sozinhos. E cantamos mais, deixando em evidência o amor ao chocolate. E a voz acabou. E sem voz, voltamos pra casa, mesmo que a vontade fosse de que a noite não tivesse fim.
E no penúltimo dia, de coração partido, nos despedimos com calma da nossa casa, guardamos as lembranças na mala, o sabor doce.
No último dia, voltando pra casa o céu chorava de saudade, e despedimo-nos entre lágrimas, palmas e Manoel de Barros.




Tentei montar com aquele meu amigo que tem um olhar descomparado, uma Oficina de Desregular a Natureza. Mas faltou dinheiro na hora para a gente alugar um espaço. Ele propôs que montássemos por primeiro a Oficina em alguma gruta. Por toda parte existia gruta, ele disse. E por de logo achamos uma na beira da estrada. Ponho por caso que até foi sorte nossa. Pois que debaixo da gruta passava um rio. O que de melhor houvesse para uma Oficina de Desregular Natureza! Por de logo fizemos o primeiro trabalho. Era o Besouro de olhar ajoelhado. Botaríamos esse Besouro no canto mais nobre da gruta. Mas a gruta não tinha canto mais nobre. Logo apareceu um lírio pensativo de sol. De seguida o mesmo lírio pensativo de chão. Pensamos que sendo o lírio um bem da natureza prezado por Cristo resolvemos dar o nome ao trabalho de Lírio pensativo de Deus. Ficou sendo. Logo fizemos a Borboleta beata. E depois fizemos Uma idéia de roupa rasgada de bunda. E A fivela de prender silêncios. Depois elaboramos A canção para a lata defunta. E ainda a seguir: O parafuso de veludo, O prego que farfalha, O alicate cremoso. E por último aproveitamos para imitar Picasso com A moça com o olho no centro da testa. Picasso desregulava a natureza, tentamos imitá-lo. Modéstia à parte.
(Oficina. Memórias Inventadas, a segunda infância. Manoel de Barros)

Nov 26, 2011

das cotas nos projetos de arquitetura

Eu dificilmente leio o caderno de esportes da Folha. A não ser quando tem notícias de aberturas das Olimpíadas ou grandes construções de complexos desportivos.
Foi esse o caso hoje (25/11/2011).
A manchete “Cota para deficiente na Copa-2014 gera disputa” ganhou minha atenção e fui lá procurar saber o que isso significava.
Ao que tudo indica em nenhum dos estádios projetados para a Copa de 2014 a cota exigida pelo Decreto Federal 5.296 de 2004 para assentos reservados a pessoas com deficiência e dificuldade de locomoção foi atingida.
Grande chance a nossa de refazer os antigos estádios, modernizar, deixar mais confortável para o público e assim atrair mais gente para as partidas, mesmo após o final da Copa. Aumentar tudo, trocar a iluminação, refazer os banheiros, as lanchonetes, as coberturas. Que delícia de oportunidade tiveram os arquitetos que fizeram esses projetos.
Pena que eles seguiram a legislação errada.
A  Lei Federal 10.098 de 2000 e o Decreto Federal 5.296 de 2004, junto com a norma técnica NBR 9050/2004 da ABNT regem nossos espaços construídos, principalmente os de uso coletivo, no que diz respeito à equiparação de oportunidades para as pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. O texto da legislação brasileira é muito feliz ao incluir idosos e pessoas com dificuldade de movimentar-se, permanente ou temporariamente, como gestantes, pessoas acidentadas ou em tratamento de doenças graves. As cotas dos assentos são destinadas a todas elas. A elas e a seus acompanhantes, porque, convenhamos, ir ao cinema sozinho nem sempre é bom. Ir ao estádio torcer é muito mais gostoso em grupo. E as pessoas nem sempre tem autonomia para ficarem sozinhas.
A legislação está aí para garantir que TODOS os brasileiros tenham as mesmas oportunidades de cultura, educação, lazer... E as cotas se fazem necessárias neste momento.
Num mundo mais altruísta as cotas não seriam necessárias, o acesso seria universal, e desde o primeiro pensamento para um traço de projeto todas as pessoas com todas as habilidades seriam incluídas.
Mas nosso mundo ainda não é assim, e a maneira de garantir que todos possam assistir a um jogo de futebol num dos maiores eventos desportivos que nosso país já sediou, é exigir a aplicação das cotas nos projetos arquitetônicos.
Fico feliz em saber que a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República está atenta e cobrando para que sejam respeitadas as normas brasileiras sobre as internacionais.
Fico triste em ver que meus colegas arquitetos responsáveis por estes projetos não se preocuparam com esta parcela da população.
Tantas vezes nos comparamos aos países europeus, aos norte-americanos, dizendo que nossas leis não são suficientes, não nos protegem, não punem os culpados, e quando finalmente temos uma lei mais humana que as internacionais, que se preocupa mais com os direitos do cidadão, achamos que ela não precisa ser cumprida em sua totalidade.
No caso dos estádios, o exemplo usado na reportagem da Folha foi o novo estádio do Corinthians, em Itaquera, São Paulo. O estádio deve abrigar a abertura da Copa, ou seja, um estádio para 70mil pessoas. Segundo a norma brasileira deveriam ter sido previstos 2.800 assentos para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, sendo 1.400 para usuários de cadeiras de rodas e outros 1.400 para pessoas com mobilidade reduzida, incluídos neste grupo deficientes visuais, idosos, gestantes, obesos, pessoas com dificuldades temporárias de se movimentar. 
Foram previstos 300 lugares.
Convenhamos, em 70mil pessoas, só 300 se encaixam na descrição acima? Acho difícil de acreditar.
Quando um arquiteto é contratado para um projeto ele deve recolher uma Assinatura de Responsabilidade Técnica, que é um documento oficial no qual estão os principais dados sobre o projeto, a metragem projetada, o tipo de edificação, o tipo de contratação, quanto ele recebeu pelo projeto. Ao final deste documento, logo acima da assinatura do profissional está escrito: “Declaro ser de minha responsabilidade técnica, dentro das atividades assumidas nesta ART e nos termos aqui anotados, o atendimento às regras de acessibilidade previstas nas Normas Técnicas de Acessibilidade da ABNT e na legislação específica, em especial o Decreto nº 5.296/2004, para os projetos de construção, reforma ou ampliação de edificações de uso público ou coletivo, nos espaços urbanos ou em mudança de destinação (usos) para estes fins”.
Ou seja, não importa que o contratante do projeto seja a FIFA, um organismo internacional, e que os manuais da FIFA exijam apenas os 300 lugares reservados a pessoas com deficiência, se o projeto está sendo realizado no Brasil, a lei brasileira é soberana e deve ser respeitada.
Espero que meus colegas tenham bastante criatividade para resolver essa situação dos projetos dos estádios. E que a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República tenha o pulso firme para exigir uma solução adequada.
Espero que no futuro, nos próximos projetos que realizarem, tenham em mente os princípios do Desenho Universal (utilização equiparável, flexível, simples, tolerante ao erro, que informe de maneira eficaz suas formas de uso, que possuam tamanhos e espaços que viabilizem o uso e exijam pouco esforço físico) desde o princípio, e não apenas como checklist de elementos ao final do projeto.
Acessibilidade não é só colocar rampa, elevador, corrimão, piso podotátil e um banheiro grande num equipamento de uso coletivo, é permitir que todas as pessoas, independente de suas habilidades, possam, com conforto e dignidade, participar das atividades realizadas naquele espaço.

Jul 27, 2011

Jul 7, 2011

New Haven Casual

tava pensando...
Tenho um montão de coisas pra fazer e uma preguiça danada... então resolvi escrever no blog.
Pra quê escrever o artigo pra mandar pro congresso se eu posso escrever no blog sem ter que conferir citação nenhuma?
Mas tava pensando sobre nossa viagem, que já está quase chegando no fim.
Já estamos empacotando coisas, combinando desligamento da internet e da TV antes que chegue a próxima conta, fazendo as comprinhas da família, as lembrancinhas dos amigos.
Estamos nos preparando pra uma semaninha de férias também. bom, eu tenho férias, o marido acabou de arrumar mais uns lugares pra fazer as últimas pesquisinhas... mas...
Com o verão à toda, o sol indo embora só depois das 8, a agente tem conseguido passear pela cidade no final da tarde. Antes de ficar escuro e esquisito.
Confesso que esses passeios tem um gostinho especial.
A luz está linda no final da tarde, as construções todas de pedras refletem o sol diferente da tinta e da cerâmica que estamos acostumados. O verde psicodélico das árvores é realçado pelos raios de sol quase horizontais.
Mas de longe o que eu mais gosto são os sinos.
De hora em hora podemos ouvir os sinos da universidade ecoando pela cidade.
É diferente do sino da igreja que avisa a hora de nos deitarmos todo dia no Brasil.
Não são os badalos que marcam as horas das missas, eles marcam as horas das aulas, do final do dia acadêmico.
Tem um som suave que diz "podem descansar e pensar sobre o dia de hoje"

May 10, 2011

Washington, DC (3)

Terceiro dia de viagem segundo dia de pesquisa.

Desta vez, devidamente agasalhado, marido foi usar o reading Room do Jefferson Building e eu fui conhecer a sala de leitura de Ciência e Tecnologia no quinto andar do Adams Building.

Não sei se já falei que adoro granilite, se não falei ainda, falo agora: ADORO GRANILITE. Pra quem não tem ideia do que tô falando, granilite é um tipo de acabamento de piso  (ou parede, divisória, banco...) feito da mistura de cimento e pedra quebradinha bem pequena e polido depois de seco. Tem muita divisória de banheiro feita de granilite por aí. Mas tô falando disso porque o piso dos acessos da biblioteca eram da granilite todo desenhado, muito colorido e eu fiquei uns bons minutos só olhando piso. A louca!
Minha parte da pesquisa foi rapidinha nesse dia. Rendeu 2 compras de livros pela Amazon e uma visita a uma instituição no dia seguinte, mas terminei todas as minhas consultas pela manhã.
Depois do almoço o marido voltou para a sala de leitura da biblioteca e eu fui fazer uma visita guiada pelo prédio mais antigo da Biblioteca.

Esse passeio rendeu boas fotos:













Quando saímos da biblioteca, a chuva que caía pela manhã já tinha dado espaço pro sol e pudemos voltar mais tranquilos pro hotel. 2 milhas na chuva não dava pra encarar. De qualquer maneira, resolvemos pegar o "Circuladô" (Circulator é um dos tipos de ônibus de Washington e custa US$ 1.00 por viagem e só aceita dinheiro exato, ou seja, tenha sempre uma nota de 1 dollar no bolso ou vá à pé) pra voltar. O combinado era sair pra jantar...

Nosso jantar romântico em DC foi no famoso Ben's Chili Bowl, uma casa de cachorro quente com o Chili mais famoso de Washington e o preferido do Bill Cosby. Depois descobri que o endereço ali era bem mais famoso do que esperava. A "U Street" foi conhecida como a Broadway Negra na década de 50 e 60 e viu muito artista e político negro importante para a história passar por ela.

Mas o vento tava gelado demais pra ficar passeando pela rua. Mas sugiro aos viajantes que gastem mais tempo nessa região da cidade.

Washington, DC (2)

De volta à Connecticut depois de 4 dias em Washington.
Que viagem mais deslumbrante!
Capitais Federais tem esse poder. É uma imponência urbana que te faz ficar em estado de êxtase a casa nova perspectiva. Azar de quem fala que não se vive bem nessas cidades projetadas como monumentos, elas são lindas nas fotografias que tiramos nos passeios turísticos.
Aproveitei tudo o que podia do curto tempo que tinha na capital estadunidense.

O objetivo principal da viagem era acadêmico, o marido e eu tinhamos que fazer pesquisa na maior biblioteca do mundo. Mas é lógico que tinha que aproveitar o pouquinho de tempo livre depois da pesquisa pra passear.

Como chegamos meio tarde na segunda feira, decidimos não arriscar a biblioteca e depois do check-in no Hostel corremos para o Air and Space Museum no National Mall.
Eu tinha que começar por lá! O passeio àquele museu em 86 é uma das lembranças mais vivas na minha memória.

Naquele ano, meus pais levaram minha irmã do meio e eu pra passar 3 semanas nos EUA, incluindo Natal com a família da minha mãe na neve, passeio pra ver a Cinderela na Disney e o aniversário da minha vó em Washington, na casa de um amigo dela que estava na equipe que projetou o Hubble. Minha irmã mais nova, que era um neném fofinho de 1ano e meio na época, ficou no Brasil com nossa tia e nos culpa por traumas de abandono até hoje... well...

Meu pai é um fanático por aviação e viagens espaciais, é daquele que ficou com os olhos até secos esperando Neil Armstrong e Edwin Aldrin pousarem na lua, tinha aviõezinhos pendurados no teto do quarto, coleciona Mecânica Popular. Lógico que ficamos horas no museu aeroespacial! Na minha lembrança foram uns três dias sem sair de lá, mas deve ter algo errado com essa lembrança.
De qualquer maneira, os caças pendurados no teto, as cabines de comando de naves espaciais, as comidas de astronautas e o filme feito dentro da Charlenger com uma "astronauta mulher" lá dentro me fascinaram. Eu tinha assistido ao lançamento e explosão daquela nave ao vivo pela tevê no começo daquele ano, e tinha umA astronauta na nave... ah, como eu queria ser astronauta!
Lógico que minha missão pela capital tinha que começar por alí.


 Air and Space Museum (foto minha)

As naves e aviões não parecem mais tão grandes... talvez pareçam mais letais hoje do que quando eu tinha 6 anos... mas não são mais tão grandes.
Desta vez fui curtir as velharias, os modelos dos primeiros aviões, os homens desafiando o ar e a gravidade. As mulheres desafiando o ar, a gravidade e os homens. Fiquei vendo cada medalhinha, cada postal recebido em combate, as bombas pintadas na lataria do bombardeiro da 2ª Guerra, os uniformes da aviação civil, os troféus das competições. Tem um sabor diferente voltar a um lugar que você só viu quando criança, mas antes tinha meu pai ao lado contando a história de cada um dos caças que estavam pendurados lá...
Os museus ainda estão fechando cedo, mesmo com o sol brilhando até mais de 7 horas da noite.
Fazer oquê, né? Fomos tomar uma cervejinha no primeiro pub bonitinho que cruzou nosso caminho.
Voltamos exaustos pro hotel e fomos descansar para começar cedo no dia seguinte.

Pra usar a Biblioteca do Congresso tem algumas regras: ninguém pode pedir nenhum livro sem estar devidamente cadastrado como pesquisador, e ninguém, a não ser os funcionários da biblioteca, pode chegar e pegar um livro na estante.
Ali em Washington três prédios compõe a Biblioteca, o Thomas Jefferson Building, o mais antigo deles, o James Madison Memorial Building, aberto em 1980, e o John Adams Building, aberto em Janeiro de 1939.

Por ser o prédio mais novo o Madison Building abriga os laboratórios e coleções especiais, como fotografias, posteres, vídeos, gravações de som, instrumentos musicais. É ali também que nós, novos usuários da biblioteca, fizemos nosso cadastro.
Marido ficou por ali mesmo pesquisando nos arquivos de imagem e eu atravessei pelos corredores subterrâneos para usar a sala de leitura do Thomas Jefferson Building.
Ler num lugar daqueles tem outro sentido.
Se existe algum lugar em que se possa assimilar idéias por osmose, só pode ser lá.
Passei a tarde ali, até ficar roxa de frio e sair pra encontrar o marido.  A temperatura de conservação dos livros é bem perto da temperatura de conservação de carne (no frigorífico!) e eu estava vestida para a temperatura externa da cidade, perto dos 30ºC. Mas tudo bem, só atrapalhou um pouco a concentração. Não cometi o mesmo erro depois.

 Library of Congress Thomas Jefferson Building (foto minha)

Resolvemos voltar andando para o hotel naquela tarde linda, afinal, o que são 2 milhas de caminhada?
Só vou dizer que às 9h estava pronta pra dormir.

May 2, 2011

Washington, DC (1)


Washington, 2 de maio de 2011

Hoje estou me sentindo no meio da notícia, como diriam os amigos jornalistas.
Ontem antes de dormir, ainda em Connecticut, tive um acesso desmemoriado e coloquei no 19. Dezenove lá na TV a cabo da minha casa do Brasil é a Globo, na TV a cabo da minha casa dos States é um canal em espanhol, pra comunidade latina da região.
E eu não assisto ao dezenove aqui, a não ser que seja algo imperdível, como Karatê Kid dublado.
Bem, voltando! Reparei que era o Sr Presidente Obama que estava falando à nação. Aí percebi que era ao vivo. Hein? Desde quando tem pronunciamento de presidente ao vivo num domingo as 11:30 da noite?  Deve ser alguma coisa séria!
Corre e procura um canal em inglês, sem a tradução simultânea pro espanhol.
Tio Obama tava lá, contanto pra todo mundo, que os militares americanos tinham finalmente encontrado e matado o Bin Laden.
Só isso, notícia meio sem importância, e eu indo dormir pra pegar o trem cedo pra Washington DC.
Vim pro meio da notícia.
Mas não vi a agitação toda não. Tô à pé e os caminhos são longos e ensolarados. Fiquei no museu Aeroespacial do Smithsonian vendo naves espaciais, caças de guerra e aviões antigos.

Apr 24, 2011

New York (2)

Foi na segunda-feira que eu realmente comecei a curtir Nova Iorque.
Tudo bem, passear no Central Park é legal pra caramba, mas ele foi construído para que se sentisse o  constraste entre o caos urbano da metrópole e os percursos sinuosos e cheios de surpresa e silêncio do do parque. Sem passar pelo caos das avenidas a sul do parque ele não tem o mesmo impacto.
Então lá fomos nós.
Minha primeira atividade do dia era passar no Consulado do Canadá pra dar entrada no visto. Oito horas da madrugada tinha estar lá com tudo pronto. Enquanto isso o marido ia fazer pesquisa no arquivo do Smithsonian ali pertinho.
O Consulado fica na Avenida das Americas, aka 6th avenu, no subsolo de um prédio com ligação direta pro metrô e pro Rockefeller Center. O arquivo do Smithsonian é do mesmo lado da avenida, uma quadra mais ao norte. (Pra cima?)
As coisas no consulado fora muito mais rápidas do que podia imaginar. tudo bem que meu padrão de comparação era a fila do consulado americano em São Paulo, com 3 horas de espera... No fim, deixei a papelada lá e só tinha que voltar no dia seguinte, desta vez às dez e meia, pra pegar o passaporte com o visto.
O combinado com o marido é que encontraria com ele no final da manhã no arquivo pra gente almoçar, então eu tinha a manhã livre pra bater pernas no centro de Manhattan.
Eu, toda toda, passeando em NY.
O perigo de andar sozinha nessas situações é ser atropelada.
Tem uma lenda que diz que a maioria dos casos de atropelamento em Paris acontece com arquitetos.
Posso acreditar! E imagino que em NY a coisa não seja muito diferente.
Não é por falta de atenção, é por excesso! Tem tanta coisa legal no meio do caminho, e pro alto, e pra trás, e pro chão... tem letreiro, tem gente, tem um milhão quatrocentos e cinquenta e três mil detalhes em cada prédio... não dá pra perder tempo olhando pro taxi amarelo que insiste em entrar na rua mesmo que o sinal esteja aberto pro pedestre.
Por sinal, leizinha de trânsito mais louca essa!

Então vamos lá, recosntituindo o percurso: Saí do consulado na 6thAve com 50thStreet, fui ver se o arquivo era mesmo na 51st. OK! Da 51st segui até a 5th Avenue.
Aí brinquei de madame e fiquei vendo vitrine. Pena que ainda não eram 10h e as lojas estavam fechadas. Fui até a 52nd, voltei, andei até a Madison. Dei a volta na Saint Patrick's Cathedral, santo padroeiro da nossa viagem.
Vi a fila que se formava em frente à Saks.
Andei pela 49th até a Park para ver o Waldorf Astoria

Attribution: James G. Howes
 Na volta, a Saks já estava aberta, mas minha veia consumista não estava funcionando e minha preguiça de experimentar roupas estava forte. Acabei comprando um baton, que era um que eu tava namorando desde o aniversário da minha mãe. Um da Clinique, "cor de boca", sem perfume, com hidratante, protetor solar e que não causa alergia, que custa quase 90 contos no shopping perto de casa e 14 doletas na Saks...
Como ainda faltava um pouquinho de tempo antes de encontrar o marido, dei uma paradinha na H&M pra ver as novidades...
Bom, na verdade foi também uma questão de necessidade. Quando saímos do hostel de manhã, era inverno em NY, mas perto da hora do almoço já era verão.
Segundo o noticiário, a temperatura chegou a 81ºF (27ºC), perto da temperatura recorde pra época.
Mas na verdade só achei uma jaqueta de brim que eu queria fazia tempo...
Hora de encontrar o marido e almoçar. 
Nosso combinado era: Carnegie Deli, perto do Carnegie Hall, pra comer o sanduíche monstro de pastrami e língua de boi indicado pelo Andrew Zimmerman.
Dá pra entender que essas duas camadas de carne são metade do sanduíche e que tem um pedaço igual atrás, né?
Metade pra cada um!
Depois dessa quantidade de comida foi um pouquinho difícil andar sem fazer a sesta, mas fomos fortes.
Andamos até Carnegie Hall, que está reformando a fachada e cheio de andaimes. Ou seja, não vi nada!
Depois voltamos para a 5ª avenida. Um calor de matar, pelo menos pra quem saiu de casa com 2 blusas de manga comprida.
Ainda bem que tinha uma GAP no meio do caminho. 
Devidamente ventilados, continuamos o passeio pela 5ª avenida até o lugar mais legal: a FAO Schwarz.
Loja de brinquedo é tãaaaao legal! Mas o piano que o Tom Hanks toca em Quero ser Grande tinha tanta criança em volta, todos pisando ao mesmo tempo nas teclas do pianos, que saimos correndo de lá rapidinho.
Depois dos brinquedos de criança, fomos na loja de brinquedos de gente grande.
(foto minha)


(fotos do site da Apple)
Lógico que numa linda segunda feira de calor na Big Apple, a loja não se parecia em nada com a loja dessa foto... Gente saíndo pelo ladrão, e nós dois em pânico pensando na fila do caixa pra pagar as compritchas.
Santa ingenuidade, Batman!
Que fila?
Depois de escolhermos todas as bobagenzinhas que precisávamos, a mocinha sacou o iphone (ou seja lá o que for aquilo, só sei que era do tamanho de um celular), leu o código de barras dos produtos com o laser do próprio bichinho, anotou nosso e-mail pra enviar a nota fiscal, passou o cartão de crédito no leitor embutido na máquina, pediu pra gente assinar com o dedo (LOUCO LOUCO LOUCO!!! como assim meu cartão de crédito aceita minha assinatura feita com o dedo sobre uma tela de iphone?), fechou a sacola e... tudo pronto! Sem fila gigantesca. Coisa mais linda do mundo!
Como ainda era cedo e o dia estava lindo, fomos conhecer a loja do restaurador de trompetes dez quarteirões ao sul.
Aproveitamos para comprar os ingressos pro show da sexta no Iridium.
Descansa um pouco, alonga em público. Puxa perna pra trás, alonga a coxa, alonga a panturrilha, alonga os braços, as costas, os tornozelos já estão adormecidos de tanta dor...
Entra no metrô pra ir pra Columbus Circle. Péeeeeeeeeeeeeee! lado errado! 20 minutos pra tomar um café e poder passar o cartão do metrô na outra direção.
Bela exposição de fotografias Traveling Full Circle: Frank Stewart’s Visual Music.
Cheios de panfletos nos bolsos, fomos apreciar a vista do final da tarde sobre NY:

 (foto minha)

Continuando o passeio, afinal o dia é lindo, fomos até o Lincoln Center. Divertida mistura entre turistas e frequentadores, vestidos para ópera e vestidos para compras...
No centro da praça tem uma fonte com um banco circular em volta, cheio de gente. No cantinho da praça uma plaquinha com os horários dos "shows de água", e eu com um sorriso sádico, esperando o show de água começar e molhar todo mundo ali... Acho que ficaram com pena, e as águas dançantes fizeram muito poucas piruetas pro meu gosto. O povo sentado ali nem se deu conta.
Encerramos o dia por aí, saindo pela lateral da praça para ver a Julliard e pegar o metrô de volta pro hotel.