May 23, 2007

O copo plástico branco de 400ml vazio e pisoteado era a única testemunha do ocorrido...
Tinha sido pivô do desentendimento e jogado ali no chão sentia-se cheio de culpa. Não era culpa dele, pobrezinho.
Pouco tempo antes estava ele, todo feliz, cheio do líquido amarelo gelado com bolhinhas e uma camada de dois dedos de espuma que cobria tudo. A boca tocava sua borda e bebia com gosto seu conteúdo. Largos goles que matavam a sede e agradeciam o presente.
Afastada, no outro canto do salão, a moça observava e sorria. As covinhas das bochechas denunciavam seu contentamento.
Parou de sorrir ao ver o copo vazio foi arremessado ao chão. O copo sentiu o olhar desapontado da moça acompanhar sua queda e depois partir.
Achou que era culpa dele, fosse de vidro estaria sobre o balcão, a boca que bebia dele talvez pedisse por mais um pouco da bebida gelada. Talvez o levasse pra passear pelo salão de volta às mãos da moça... Ele gostaria disso, gostaria de estar completo novamente, com a camada de espuma suave e as bolhas que estouravam refrescantes em seu interior...
Agora estava lá no chão, no meio do salão, sendo chutado pelos pés dos dançarinos.
Teve tanta esperança ao ser escolhido dentro da pilha de copos. Puxado de dentro do saco, sacado como uma arma, colocado no balcão e servido por uma garrafa de vidro marrom cujo conteúdo gelado lhe dava tanto prazer. Imaginara grandes aventuras naquela noite em que saía pela primeira vez de sua embalagem, ainda não conhecia sua vulnerabilidade, sua condição descartável.
Deixou as mãos da moça acompanhado de um pedaço de papel e foi levado, em seu primeiro grande vôo cruzou a pista até àquele que sorveria o fluido de seu interior.
Já acompanhava o flerte desde o início da noite com o bar ainda vazio, sonhava sair logo do invólucro e participar da ação. Viu a troca de olhares, os acenos com a cabeça, o cochicho de um lado e de outro nas rodinhas de amigos. Torcia pelo desfecho feliz, pela sua participação especial na história. Nunca imaginou que seu tombo traria a desilusão da moça... Que infeliz a sorte do pobre copo.

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